quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Soneto

A Franz Xaver Kappus

Treme sem queixa por meu coração,
sem suspiro uma dor muito sombria.
Só dos sonhos a nívea floração
é a festa de algum mais tranqüilo dia.

Tanta vez a grande interrogação
se me depara! Encolho-me, e com fria
timidez passo, como passaria
por bravo mar, sem aproximação.

Desce então sobre mim, turva amargura
como esses céus cinzentos de verão
onde uma estrela às vezes estremece.

Tateantes, minhas mãos vão à procura
do amor, buscam palavras de oração
que meu lábio deseja e não conhece.

in: Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Rainer M. Rilke. Tradução de Paulo Rónai e Cecília Meireles

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