quinta-feira, março 19, 2009

O tato

O tato

O tato é o sentido que marca, no corpo, a divisão entre eros e tânatos. É através do tato que o amor se realiza. É no lugar do tato que a tortura acontece.


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu abraço
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?


Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve! [...]


Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério
Súbito e etéreo
Que nem soubesses
Que tinha ser.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, março 16, 2009

ONCE UPON A TIME II

Oi! Ooii, olá! Então...Que há de novo? Nada! Tudo assim, assim. Hum...Muito trabalho, domingo a domingo...Você gosta? De quê? Disso – trabalho de domingo a... Não! Claro que não! E por quê você...Ei, pergunta difícil, não. As duas riram. Pois é. Você... Que foi? Um olhar...É? Sim, mais sério que o de costume. A vida? Tudo bem. Ele? O olhar se desvia não somente do olhar-outro, mas dela mesma. Uma festa e um sonho! Então, perfeito! Meio sorriso a concordar. Certo? Certo! Ai, você...E os óculos? pergunta entre um riso-olhar de canto. Tenho novos. Que ótimo? Quer ver? O quê? Ora! O quê...os óculos. Ah, sim! Lindos! Sim, de repente os comprei – pura catarse. Um riso largo na expressão de olhar sério. E... estremeço. Mesmo? Como nunca..."Mares nunca d'antes navegados”. Amor, é o A M O R! - minha amiga. Agora, dois risos de acordo. Você o ama? Mais que isso! Silêncio reticente. Tatuagem, volúpia, saudade, calafrios, rimas fáceis – riso tímido no olhar de brilho-luz do amanhecer. Um suspiro. O que fazer? - pergunta escondendo as lágrimas que se ensaiam no canto-olhar de desalento. Sentir, ora! Ah, a sua forma de ver as coisas. Simples assim. É, perdoe-me. Não sou você. Há diferença. Não, não se preocupe. “O Tempo: senhor da razão.” Isto, melhor não evitar. Mas...o quê? Tanta ilusão ou realidade demais? Você, só você, minha amiga, pode definir. Posso!? Riso agora claro. Rosto afogueado. Então, eu gritarei “Te amo!”. Ei, mulher, está louca?! Sorry, my friend! Eu acho que...um minuto, essa música! Sim? No silêncio que se seguiu, a cadência dos passos das duas seguiu rumos diferentes. Ela, no entanto, coração denso, explodindo no peito, absorveu os versos:

Vem a chuva, molha o meu rosto e então eu choro tanto
Minhas lágrimas e os pingos dessa chuva
Se confundem com o meu pranto
Olho pra mim mesmo, me procuro e não encontro nada
Sou um pobre resto de esperança à beira de uma estrada

domingo, março 15, 2009

OFERTÓRIO...

Um coração para ocupares inteiro...
Um amor para desfrutares quando assim desejares...
Um beijo para soprar, em tua boca, segredos indizíveis...
Um abraço para que te deixes enlaçar nos dias de cansaço...
Um sorriso para cortejar a esperança no teu semblante...
Mãos que se estendem a te oferecer paz e alento
comovidas a te receberem em festa...
Um olhar para alcançares, no brilho que dele se emana, a profundidade do horizonte...
Um corpo para preencheres o teu de alegria, prazer...
E para que o teu preencha-o com desejo e eternidade...
O mar para que, no equilíbrio céu-terra, sejas arrastado por ondas infindas...
a fim de que te sejas possível valorizar tua permanência em terra firme
na companhia de um outro ser distinto de ti, mas
mesmo assim, afeito a ti...
Enfim, aqui se encontra uma humana existência falha e perfeita, arrogante e sublime
A te esperar
no minuto seguinte, nos dias que se passam chuvosos, certos ou dúbios
fitando o nascer-pôr-do-sol
condensando da mente palavras
e do destino promessas de que um dia voltes...
A ti, Sunflower Grower
S & F

quarta-feira, março 11, 2009

Faz Tempo

Faz tempo que eu não sei o que é um sorriso
Livre, espontâneo
Faz tempo, muito tempo que eu preciso
Arrancar esse sorriso
Desse vão subterrâneo de dentro de mim
Faz tempo que eu só sei ficar em casa
Triste, tão sozinho
(...)
Faz tempo e quanto mais eu rememoro
Mais me calo, bebo e choro
E desespero por você
Faz muito tempo...

(MPB4)

Quando chove (Patricia Marx)



Quando olho nos teus olhos

Não vejo a luz do amor

Só as sombras do passado

Só um fogo que se apagou

A vida é assim

Nosso espelho se quebrou

É hora de se guardar

Um segredo no coração

Se chove lá fora

Queimo aqui dentro

De vontade de te abraçar, Amor

Quando chove

Fica mais triste esperar

Por alguém

Que não vai chegar

Quando ouço teu silêncio

Escuto meu coração

Bater apressado e urgente

Te querendo sem querer

Cansado de sofrer

Mas agora já é hora

Dessa chuva ir embora

domingo, março 01, 2009

À guisa de reflexão

"Às vezes as coisas coincidem com a idéia que fazemos delas; às vezes não. Quase sempre não, mas aí o tempo já passou, e então nos ocupamos de coisas novas,que se encaixam em outras famílias de coisas novas, que se encaixam em outras famílias de idéias..."

Cristóvão Tezza in: O Filho Eterno, São Paulo: Record, 2007. 3ª ed.