A presente resenha é fruto da leitura comparativa entre os textos “Pedagogia dos Caracóis”, de Rubem Alves e ”Velocidade Máxima”, de Martha Medeiros.
Diante da compreensão de que a vida contemporânea somente pode ser plenamente vivida se os seres humanos estiverem num ritmo de aceleração constante, Rubem Alves, em seu artigo “A Pedagogia dos Caracóis”, contrapõe-se à incorporação, pelo sistema de ensino e pelo discurso dos professores, desse ritmo ao processo do ensinar-aprender e vice-versa, que reproduz, no espaço da escola ou da sala de aula, o cotidiano discursivo do “mais produzir”, “mais reagir”, “mais estar”, “mais conquistar”, “mais se localizar à frente” e “sempre em frente”, numa constante repetição de “olhe o tempo”.
O autor reflete, numa postura conscientemente humana, peculiar à sua escrita, sobre o quanto a aceleração, no discurso pedagógico, minimiza ou aniquila o processo de construção de relações de comunicação, por meio das quais professor e aluno, em cumplicidade, “enamoram-se” do saber e sua (re)construção, descobrindo, dessa maneira, o mundo em sua beleza que não pergunta, tampouco responde, todavia recria-se apaixonada, paulatina e humanamente, em sua estrutura própria, sem grandes afetações criadas por uma realidade útil e fruto de nosso trabalho, que não pode ser desconsiderada ingenuamente e que, no entanto, não pode ser determinante do ritmo humano. Não há regras e pressupostos limitadores no enlevo de aprender-ensinar. Há expectativas e desejos a serem valorizados.
Nesse sentido, o mundo da velocidade supersônica é mote, também, às reflexões de Martha Medeiros, em seu artigo “Velocidade Máxima”. O título não é mera coincidência. A referência ao filme leva o leitor a recriar na mente o tempo reafirmado, a todo instante, como o fio condutor das relações de sobrevivência nos dias de hoje. Assim, competente é o indivíduo que dobra suas ações-reflexões, superando os limites de tempo. É preciso arriscar-se e a tomada de decisões vale pela competência do indivíduo em efetivá-las no mínimo de tempo e máximo de acerto.
Para além da apelação ao tempo, que impõe um viver no ritmo acelerado e cada vez mais potente das máquinas, os autores alertam para a percepção de que o ser humano está na UTI das relações interpessoais e consigo mesmo. Afinal, a quem se busca satisfazer? Ao ritmo veloz ditado pelo consciente coletivo do mundo seduzido pela tecnologia ou aos nossos próprios desejos de (re)criar o mundo, visando a uma melhora de nossa qualidade de vida? Não é à toa que dados estatísticos mostram, cada vez mais, um ser humano debilitado física e emocionalmente. No entanto, não há como evitar essa vertigem cronológica.
Então, é preciso, como medida de valoração à criatividade, à vida mesma, a retomada do ritmo ancestral da humanidade, contraponto à artificialidade vertiginosa da vida urbana, pois à proporção que se entende que, mesmo estando, virtualmente, em todos os lugares, a todo instante, SER mais é irrefutavelmente benéfico, pois movimentar o olhar na direção de pequenos fatos, ingênuos até, pode e vivifica muito mais a capacidade criadora de melhor e mais utilmente sobreviver, já que no pôr-do-sol, no ritmo do beija-flor (acelerado, porém belo porque é de sua natureza), no ciclo das quatro estações, entoadas nas notas de Vivaldi, há uma harmonia que não foi imposta nem é comando. Ela se realiza e se reinventa, sem pré-determinismos. Dessa maneira, a desaceleração é a opção que qualitativamente engendrará vivências espirituais e físicas que privilegiem a construção de um sujeito satisfeito em suas realizações pessoais e interpessoais, ou seja, um sujeito envolvido plenamente com seu ser-estar no mundo, motivado pelo ritmo de suas conquistas acontecidas no plano de suas escolhas conscientes ou surgidas como desafio à sua própria condição de não ser o detentor pleno de seu destino. Não se pode entender isso como pólos extremos: comodismo numa ponta e ação, a curto prazo, na outra.
Assim, a forma de viver é aproximação, é comunicação, é aprendizado, é recuo e avanço, é virtude ou vício selecionado entre muitas outras possibilidades de se estar ao lado da humanidade, em primeira e última instância. Afinal, a vida não pode jamais ser submetida ao despertador do lado da cama ou ao comando do toque do celular, que anuncia um novo compromisso a cada instante. Então, lembrando Pessoa, ‘navegar é preciso“, porém não custa nada observar a paisagem que se descortina, sem grandes embates e conflitos cronológicos.
Referências
Alves, R. A Pedagogia dos Caracóis in www.revistaeducacao.com.br
Medeiros, M. Velocidade Máxima. Exame, 15 de dezembro de 1999.
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