A revista Exame, de 03/06/1998, publicou entrevista com Sarah McGinty, àquela época, supervisora de mestrado da escola de Harvard, formada em Lingüística e Literatura. Dedicando-se a pesquisas sobre como as pessoas controlam situações por meio da linguagem, Sarah, segundo a entrevista, chegou à conclusão de que é um mito analisar a linguagem a partir de uma visão sexista, ou seja, a partir de uma diferenciação entre uma forma masculina de se expressar e uma forma feminina. Para a pesquisadora, o que determina o poder de controle de uma situação são as diferenças de linguagem. Se uma pessoa sente-se confortável diante de uma situação que exige controle, ela é objetiva, fala naturalmente com mais ênfase, mais segurança e confiança. No entanto, somente falar como quem detém o poder não é suficiente. A linguagem de quem tem poder pode e deve flexibilizar-se, já que num mundo competitivo e global, as regras do jogo são alteradas o tempo todo. E num mundo em que o necessário não é apenas diferenciar-se, e sim comprovar competência, o mais importante é observar que, na maioria das vezes, líderes obtêm resultados profícuos quando se expressam como se não detivessem poder. Dessa maneira, o estilo de linguagem pode resultar em conquistas bastante eficientes no campo da atuação e promoção profissionais.
Além desses dados, é inevitável não se perceber como a linguagem, na Era do Conhecimento, é condição sine qua non para se promover a inserção das sociedades e dos indivíduos num mundo cada vez mais diluído e sem fronteiras políticas, econômicas e culturais marcadamente concretas. O ritmo da vida contemporânea determina uma linguagem que constitui um sujeito cada vez mais envolvido com questões universais.
Nesse sentido, importante é perceber que constituído por meio dessa linguagem, o indivíduo deve também se constituir como detentor de uma identidade, baseada em suas experiências e modificadas pelas suas vivências cotidianas. Ninguém é melhor ou pior por dominar certo estilo, certa forma de linguagem. Porém, as portas do mundo global não acolhe o indivíduo que não se mobiliza nas mais diversas situações de interação por que passa todos os dias. Agir pela linguagem, persuadir, conquistar, seduzir, conhecer, dar-se a conhecer pode não ser um caminho tão complexo, quando se percebe que o mais importante são as relações estabelecidas com o outro, referindo-as a um compromisso humano de atuação na atual conjuntura social, que é dividida em tantos valores éticos, filosóficos, culturais, políticos, morais etc, que seria impossível elencá-los numa só vez. Não é exagero afirmar que em nenhum momento da história da humanidade, a linguagem desempenhou papel tão essencial quanto contemporaneamente, já que a linguagem do poder não é mais a linguagem da submissão pelo conhecimento, cristalizadamente produzido e concentrado nas mãos de poucos. Cada vez mais, os avanços tecnológicos desencadeiam processos de relações sociais imediatas com as informações e com os conhecimentos social, contemporânea e historicamente produzidos, pois é fato indiscutível que a família, as bibliotecas e as escolas e universidades, além de professores, já não são mais as referências exclusivas para obtenção de conhecimentos ou informações, porém são ainda fundamentais por organizar, selecionar e compactar essas informações e conhecimentos como nenhum outro meio ou instituição conseguiu . Nesse sentido, o ser humano pode e tem se perdido quanto aos seus valores, porém outras possibilidades de interação surgem e a demanda por uma necessidade de se dominar uma linguagem global, que comunique a todos os povos agrega-se à necessidade de se valorizar, de se respeitar os espaços geográficos naturais singulares, as culturas, as línguas, as crenças, as pequenas aldeias, as idiossincrasias, o humano enfim, pois a máquina, muito rapidamente, já se inscreveu em praticamente todos os âmbitos do cotidiano das pessoas, de modo inevitável. Porém, o humano guarda em si o gérmen da esperança e este gérmen tem como fonte a linguagem que pode ser a da justiça e a da liberdade, a da luta contra um processo acelerado de incompreensão e diluição dos relacionamentos humanos .
Diante dessas constatações, cabe enfatizar que no domínio da linguagem, a escola é espaço privilegiado de discussões, embates, enfrentamentos, e porque não dizer, exercício de poder de construção e reconstrução de identidades, o que resulta ou deveria resultar na formação de indivíduos capazes de atuar com competência e habilidades para reivindicar e fazer cumprir seus direitos ou conquistá-los, e para que possam compreender a dinâmica de respeito aos seus deveres, ampliando-se assim suas perspectivas de inserção no mundo globalizado, a partir da realidade em que se insere. Tem-se uma tarefa a cumprir, e nada é mais importante do que viabilizar a construção de uma linguagem da educação que privilegie, para além de direitos e deveres, atos de valorização ou (re)construção da identidade dos indivíduos permeados pelas relações estabelecidas por / pela linguagem. Afinal, há o velho ditado que diz: “Quem não comunica, se trumbica”, porque a linguagem pode comportar, e muitas vezes comporta, a mais perene fonte de relação de poder e domínio entre os homens.
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